Fernando Carpaneda


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Arte Homoerótica de Fernando Carpaneda


Por Nelson Baco - Poeta e professor de Artes

Fernando Carpaneda desenvolveu desde o início de sua criação artística uma tendência a mostrar sua erotização em particular com o corpo masculino. Parte do cotidiano de cada um de nós, a sexualidade oprimida, silenciada, em Carpaneda é explicitada e põe em diálogo aberto os universos interiores e exteriores. Artistas consagrados já trabalharam o tema de forma sutil ou mesmo exagerada. Michelangelo Buonarrotti, no teto da capela Sistina pintou um Cristo musculoso, homem desenvolvido, pintou um Deus grande dando vida a um homem também já adulto e esculpiu um Davi heroicamente másculo, como másculo também foi seu Escravo Moribundo. Caravaggio utilizou formas delicadas, atraentes e sedutoras no seu Baco. Passados alguns séculos Tom of Finland trouxe de forma mais explícita em sua arte a erotização mostrando homens camponeses, fazendeiros, lenhadores, trabalhadores da construção, policiais, marinheiros e outros, com corpos à mostra, nus ou seminus, e com enormes pênis. Mas uma aura de romantismo permeia seu trabalho, ainda que se mostre por vezes revestido de elementos do inconsciente proibido: o couro. Brad Rader em seus desenhos e o polonês ULF, com seus homens criados em computador, são absolutamente mais ousados e colocam à vista não só falos eretos mas ainda orgasmos efetivados e cenas instantâneas de desejo e violência. Estes artistas proclamaram uma elegia aos prazeres e aos corpos, em sua maioria, grandes e musculosos. Carpaneda, utilizando-se do seu campo material, mostra em sua arte homoerótica, homens comuns, das ruas, de suas experiências pessoais. Assim, emergem em suas esculturas, punks, mendigos e homens distantes modelos imaginados. Em suas telas, alguns se libertam de tijolos, em suas esculturas da fase expressionista eles se misturam uns aos outros e saltam do bidimensional e em suas esculturas mais contemporâneas, a assemblagem expõe diretamente seus personagens através de partes reais: pontas de cigarro usadas, pelos naturais, pedaços de roupa, de cabelo, saliva, sangue e até mesmo o esperma trazem às obras mais concretização e realismo em sua arte, não necessitando assim de simples idealizações pois o diálogo é em tempo real e fica estático, à mostra. Aqui o sexo tem cor, tem cheiro, tem textura e tem volume. Michelangelo está para Thomas Mann, Proust e Oscar Wilde, esteta convicto na literatura, assim como Carpaneda está para Pasolini, Jean Genet, Artaud, Masoch e mesmo Sade, o marquês. Fernando coloca em suas esculturas o sabor da vida que corre nas ruas quando as ruas dormem. É o doce da busca, da procura, do achado e o amargo e o dissabor da dor, do gozo em silêncio, do desejo casto castrado, do reprimido, quando propõe também um embate ferrenho do tesão versus a religião (leia-se aqui Charlie, um de seus bonecos de versão baseada em ícone católico brasileiro) . Fernando não se incomoda em mostrar aquilo que sente e o que pensa porque é aí que se encontra sua arte. Sua sexualidade não delimita espaços nem personagens. Roqueiros, padres, policiais, alternativos, taxistas, fashionistas, mendigos, viciados, garotos de programa, travestis, transexuais, transgêneros, magros ou gordos, lisos ou peludos, nus, seminus, com seus pênis eretos ou não, com seu orgasmo vindouro, iminente ou já deflagrado. Qualquer homem pode ser encontrado e reconhecido em suas esculturas, pois todos fazem parte de seu cotidiano e do nosso, por mais que tentemos não ver. Para nossa graça, a arte sacra e profana de Fernando Carpaneda já aparece entre renomados artistas internacionais constando no livro "Treasures of Gay Art", ao lado de Andy Wharol, Robert Mapplethorpe, Keith Haring, Jean Cocteau entre muitos outros. Que apreciem, os que têm bons olhos!


A Arte de Fernando Carpaneda


Fernando Carpaneda é um dos artistas plásticos mais importantes da arte contemporânea de Brasília. Iniciou sua carreira aos 13 anos de idade, pintando paisagens ingênuas e retratos despretensiosos. Hoje, artista de carreira internacional, sua obra já alcançou grande prestígio e reconhecimento na Rússia, Espanha, Itália e EUA. Sua carreira em Brasília não foi fácil, em razão da forte influência do lado “marginal” da vida urbana em sua obra e de sua visão radical sobre temas político-sociais. Quando um renomado galerista sugeriu mudanças para que seu trabalho se adequasse melhor às demandas do mercado, Carpaneda rompeu com o convencionalismo das galerias de arte e partiu para uma jornada artística mais pessoal. Passou a expor em bares e espaços abertos, muitas vezes os próprios cenários que lhe serviam de inspiração. Alguns dos novos apreciadores de sua arte se tornaram estrelas do rock nacional, entre eles Renato Russo. Com criatividade ácida e o uso inusitado de materiais nada convencionais (muitas vezes oriundos de descarte), Carpaneda consegue finalmente impor sua arte tirada das ruas após receber convite para participar de exposição coletiva na galeria do famoso clube CBGB, em Nova Iorque. O local, frequentado por famosos como David Bowie, Robert Mapplethorpe, os integrantes do The Police, Arturo Vega (produtor dos Ramones), Patti Smith e Madonna, abriu as portas para que Carpaneda entrasse definitivamente no circuito internacional de arte. Foi um dos primeiros artistas plásticos brasileiros a divulgar e expor sistematicamente trabalhos de temática homoerótica e underground. Retratados em esculturas de argila, Carpaneda os desnuda em tudo o que possuem de sagrado e de profano. Seu engajamento voraz na causa da diversidade o levou a expor no The Leslie Lohman Museum de Nova Iorque, na Tom of Finland em Los Angeles e no Stax Museum em Memphis. Em pouco tempo viu suas obras integrar acervos de galerias e museus em vários países. A arte ao mesmo tempo sacra e profana de Fernando Carpaneda já figura no panteão do livro Treasures of Gay Art, ao lado de Andy Warhol, Robert Mapplethorpe, Keith Haring, Jean Cocteau e muitos outros. Em 2000, o artista produziu esculturas retratando cenas de sexo explícito, pop-stars e garotos de programa. Onze anos depois, cria a polêmica instalação de esculturas intitulada Bolsonaro’s Sex Party, que se torna uma de suas obras mais famosas.


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